Quando você vê um CDB oferecendo 110% do CDI e uma LCI pagando 98% do CDI, qual dos dois é melhor? A resposta não está no número em si, mas no que você efetivamente embolsa depois de pagar o Imposto de Renda e depois de descontar a inflação. Este artigo explica, passo a passo, como chegar a esses dois números: o retorno líquido e o ganho real.
Passo 1: entenda o rendimento bruto
O rendimento bruto é o que o título paga antes de qualquer desconto. Ele pode ser expresso de quatro formas principais:
- Percentual do CDI — ex: 110% do CDI. Com CDI em 10,5% a.a., isso equivale a 11,55% a.a. bruto.
- CDI + spread — ex: CDI + 2% a.a. Com CDI em 10,5%, isso equivale a 12,5% a.a. bruto.
- IPCA + spread — ex: IPCA + 7% a.a. O rendimento varia conforme a inflação realizada.
- Taxa pré-fixada — ex: 13% a.a. O rendimento não muda independentemente do que aconteça com o CDI ou o IPCA.
Até aqui é só matemática simples. O pulo do gato está no que vem depois.
Passo 2: calcule o retorno líquido (descontando o IR)
A maioria dos produtos de renda fixa é tributada pelo Imposto de Renda na fonte, pela tabela regressiva:
| Prazo de aplicação | Alíquota de IR |
|---|---|
| Até 180 dias | 22,5% |
| De 181 a 360 dias | 20,0% |
| De 361 a 720 dias | 17,5% |
| Acima de 720 dias | 15,0% |
O IR incide apenas sobre o rendimento, não sobre o principal. Então, se você aplicou R$10.000 em um CDB que rendeu R$1.200 bruto e o prazo foi de 2 anos (alíquota 15%), o IR é R$1.200 × 15% = R$180. Seu rendimento líquido é R$1.020, o que equivale a uma taxa líquida anualizada de aproximadamente 5,02% a.a. — bem diferente dos 12% brutos ao ano na comparação simples.
A fórmula para converter taxa bruta anual em taxa líquida anual é:
retorno líquido = (1 + taxa bruta) ^ (1/anos) − 1 aplicado ao prazo, depois deduzindo o IR sobre o ganho total.
Na prática, para horizontes mais longos, a conta envolve capitalização composta e a alíquota correta para o prazo exato. A plataforma faz esse cálculo automaticamente para cada título.
Produtos isentos de IR
LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas são isentos de IR para pessoas físicas. Isso significa que o retorno líquido é igual ao bruto. Por isso, uma LCI a 98% do CDI pode ser melhor que um CDB a 115% do CDI dependendo do prazo — o IR do CDB come a diferença.
Exemplo com CDI em 10,5% a.a. e prazo de 2 anos (IR de 15% no CDB):
| Produto | Taxa bruta | IR | Taxa líquida |
|---|---|---|---|
| CDB 110% CDI | 11,55% a.a. | 15% | ~9,90% a.a. |
| LCI 98% CDI | 10,290% a.a. | isento | 10,290% a.a. |
Nesse cenário, a LCI vence, mesmo pagando menos no bruto.
Passo 3: calcule o ganho real (acima da inflação)
Saber o retorno líquido já é muito, mas o número que realmente importa para o seu patrimônio é o quanto você cresceu acima da inflação. Um investimento que rende 10% líquido com inflação de 10% não gerou riqueza nenhuma — você só manteve o poder de compra.
O cálculo correto usa a equação de Fisher:
ganho real = (1 + retorno líquido) ÷ (1 + IPCA) − 1
Exemplo: retorno líquido de 9,90% e IPCA de 4,8%:
ganho real = (1 + 0,0990) ÷ (1 + 0,048) − 1 = 1,0990 ÷ 1,048 − 1 ≈ 4,87% a.a.
Ou seja, seu poder de compra cresceu 4,87% ao ano. Esse é o número que você deve usar para comparar investimentos de longo prazo e para o planejamento do seu patrimônio.
Para títulos IPCA+, o ganho real é diretamente o spread — IPCA + 7% a.a. garante 7% de ganho real por definição, o que torna a comparação com outros produtos mais simples.
O problema do IPCA fixo
O cálculo acima usa um IPCA único para todo o período. Isso funciona para uma estimativa rápida, mas em títulos com prazo de 3, 5 ou 10 anos, a inflação não é constante — ela vai variar a cada ano. Usar o IPCA atual como se fosse eterno superestima ou subestima o ganho real dependendo do momento do ciclo econômico.
A forma correta é usar as projeções ano a ano do Boletim Focus, o relatório semanal do Banco Central onde mais de 100 instituições financeiras informam suas expectativas para IPCA, CDI e SELIC nos próximos anos. Em vez de aplicar 4,8% de IPCA para os 5 anos do título, você usa 4,8% no ano 1, 4,2% no ano 2, 4,0% nos anos seguintes — e compõe esses valores na equação de Fisher ano a ano.
A diferença pode parecer pequena, mas em títulos longos ela muda o ranking de qual investimento é melhor. E aqui está o problema: a maioria dos comparadores de renda fixa usa um IPCA fixo, porque buscar as projeções do Boletim Focus via API do BCB, extrair os valores para cada ano do vencimento e interpolar os dados que faltam é trabalhoso o suficiente para ninguém querer fazer manualmente. Na planilha então, é praticamente inviável manter atualizado.
Você tem três opções para R$10.000 com prazo de 3 anos, com CDI em 10,5% e IPCA em 4,8%:
| Produto | Bruto a.a. | Líquido a.a. | Ganho real a.a. |
|---|---|---|---|
| CDB 110% CDI | 11,55% | ~9,98% | ~4,94% |
| LCI 98% CDI | 10,29% | 10,29% | ~5,24% |
| Tesouro IPCA+ 6% | ~11,09% | ~9,43% | ~4,41%* |
*O Tesouro IPCA+ tem IR sobre todo o rendimento, incluindo a parte do IPCA. O ganho real efetivo acaba sendo menor do que o spread nominal sugere.
Nesse cenário, a LCI sai na frente, seguida de perto pelo CDB — e o Tesouro IPCA+ perde para ambos apesar do spread atraente, por conta do IR sobre a parcela do IPCA.
Por que fazer isso manualmente é trabalhoso
Para cada título você precisa: saber a taxa CDI/IPCA/SELIC atual, aplicar a capitalização composta correta, usar a alíquota de IR certa para o prazo, projetar o IPCA até o vencimento, e aí fazer a Fisher. Para comparar 20 títulos de bancos diferentes, isso significa 20 planilhas com fontes diferentes — ou uma ferramenta que faça isso automaticamente.